terça-feira, 12 de agosto de 2008

Momento meio Sexy and The City meio wicca

Vai ao dentista numa cidadezinha minúscula com mania de grandeza que chama de "síndrome primeiromundista", mesmo não tendo cinema e ainda sofrendo de enchente. Na saída do consultório, sentencia:
- Vou encontrar o ex.
E ele passa de bicicleta do outro lado da rua, magérrimo, ao que ela pensa em voz alta:
- Preciso de uma bicicleta urgente!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

De pq o Musical Gota D´Água é imperdível

E pq Chico Buarque não tem pra ninguém no entendimento da alma feminina...

Joana - Então tenha a coragem de dizer por que você me deixou?...
Jasão - Você quer saber?...

Joana - Quero, vá...
Jasão - Você é viagem sem volta, Joana. Agora eu vou contar pra você, sem rancor, sem sacanagem, porque é que eu tinha que te abandonar. Você tem uma ânsia, um apetite que me esgota. Ninguém pode viver tendo que se empenhar até o limite de suas forças, sempre, pra fazer qualquer coisa. É no amor, é no trabalho, é na conversa, você me exigia inteiro, intenso, pra tudo, caralho... Tinha que olhar pro céu pra dar bom dia, tinha que incendiar a cada abraço, tinha que calcular cada pequeno detalhe, cada gesto, cada passo, que um cafezinho pode ser veneno e um copo d'água, copo de aguarrás. Só que, Joana, a vida também é jogo, é samba, é piada, é risada, é paz. Pra você não, Joana, você é fogo. Está sempre atiçando essa fogueira, está sempre debruçada pro fundo do poço, na quina da ribanceira, sempre na véspera do fim do mundo. Pra você não há pausa, nada é lento, pra você tudo é hoje, agora, já, tudo é tudo, não há esquecimento, não há descanso, nem morte não há. Pra você não existe dia santo e cada segundo parece eterno. Foi por isso mesmo que eu te amei tanto, porque, Joana, você é um inferno. Mas agora eu quero refresco, calma, o que contigo nunca consegui, nunca, nem um minuto. Já, com Alma é diferente, relaxei, perdi a ansiedade, ela fica ao lado, quieta e a vida passa sem moer a gente...

Quando a chuva aperta

Não parece pedir demais
ter alguém a quem abraçar
quando a chuva aperta
Ou perguntar quando o resultado
do exame não é familiar:
- Será que é grave?
Pedir cafuné quando entro com o traseiro
e o trabalho com o pé:
- Pode ser que repita antigos erros,
que ainda tenha o que aprender,
mas lá não era pra você mesmo!
A quem confessar quando morre
o pai da amiga de infância:
- Se fosse o meu, pirava!
Dividir encantos numa peça,
filme, viagem, show, retiro:
- Não é lindo?
Alguém pra rir da comida queimada...
- É, não levo jeito mesmo!
Pra acender a luminária, o incenso,
por um som, puxar o cabelo
beijar a nuca e esquecer da hora...
Acordar atrasada, ir trabalhar bem humorada...
Fazer as velhas borboletas
pousadas no estômago darem rasante
e um divertido frio na barriga...
E se tudo isso vier sem rótulo,
sem apego, sem rejeição,
só com o riso à toa fácil
e as surpresas entre uma palavra e outra
Aí é o bilhete premiado da loteria

Francine Machado

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Entre o encanto e o desencanto

Estranheza te rever
o mesmo de sempre e tão novo
sem barba, com menos espinha
o mesmo riso gostoso ao falar do filho
E o familiar mal estar de fingir
que nada aconteceu
ou que tudo se passou entre duas almas,
dois corpos, dois corações, mas uma só paixão
Solitária que não encontra ressoar semelhante
ir ou não ao mágico sarau
em que tudo começou
e pode - pq não? - poeticamente acabar
Pq o sentimento tem que ser renovado
a alma precisa se sentir lavada
e o coração liberto
Deixo que essa história faça a curva do rio
se tiver que voltar, será bem vinda,
se não, doce lembrança que não se apaga
Os mais intensos são sempre os mais fugazes?
gratidão pelo retorno às letras
e me sentir viva de novo
ainda que por minha conta - e risco
Francine Machado

Da pré estréia de Devoção

"Os animais não precisam de Deus e são perfeitamente felizes - nem um único pássaro, nem uma única árvore sente falta de Deus. Eles estão todos aproveitando a vida na sua mais completa beleza e simplicidade, sem nenhuma necessidade de temer o inferno e nenhuma busca ansiosa pelo paraíso, sem diferenças filosóficas. Não existem leões católicos, não existem leões protestantes nem hinduístas. Todos os seres vivos devem estar rindo do homem, do que aconteceu aos seres humanos. Se os pássaros podem viver sem religiões, igrejas, mesquitas e tempos, por que o homem não consegue? Os pássaros nunca travam guerras religiosas; nem os animais, nem as árvores. Mas você é muçulmano e eu sou hinduístas, e nós não podemos coexistir - ou você se converte à minha religião ou se rende. ou vou lhe mandar para o céu imediatamente!" Osho, Intuição, O Saber Além da Lógica, Editora Cultrix.
Não por acaso essa leitura aconteceu de encontro à pré estréia do documentário Devoção, no Cine Bombril, em São Paulo. Ambos são de se fazer pensar, um pela lógica e ironia e outro pelos aspectos ancestrais, de transe, sensitivos, intuitivos, inebriantes. Como diria Einstein "você pode viver como se tudo fosse um milagre ou como se nada fosse um milagre"... E um dia não necessariamente transfere a fé para o seguinte, mas seguimos em busca do sentido, do que faz a diferença...

Procuram-se futuros atores...

"As pessoas do coração - os pintores, os poetas, os músicos, os dançarinos, os atores - são todas irracionais. Elas produzem grande beleza, elas são grandes amantes, mas estão completamente deslocadas numa sociedade que é organizada pela cabeça. Os artistas são considerados pela sua sociedade quase como párias, um pouco malucos, um tipo de gente insana, visionária. Ninguém quer que os seus filhos se tornem músicos, pintores ou dançarinos. Todos querem que eles sejam médicos, engenheiros, cientistas, porque essas profissões compensam. A pintura, a poesia, a dança são perigosas, arriscadas - você pode acabar simplesmente como um mendigo na ria, tocando flauta" Osho, Intuição O Saber Além da Lógica, Editora Cultrix.
Será por isso que no primeiro dia de aulas da turma noturna de artes cênicas da Faculdade Paulista de Artes ainda faltem alunos para dar continuidade à licenciatura de três anos? Justo num momento em que o governo estadual incluiu a cultura no currículo das escolas públicas e a prefeitura procure arte-educadores para os CEUs? Precisa-se dos que teimam em nadar contra a corrente: www.fpa.art.br

A delícia de entrar na história

A peça Subterfúgio não acontece num palco comum – ao contrário, ela se ocupa de um casarão dos anos 50, na rua Antonia de Queirós, que funciona durante o dia como um antiquário e que não poderia render cenário melhor para os temas carência, saudade, ciúme e traição, que nunca saem de moda.
Como é de se esperar num espaço como esse, o público anda e faz uma tímida participação – nada vexatória. Mas o ambiente intimista faz com que os atores não apenas encenem pequenas histórias – que não se cruzam – sobre essa fonte inesgotável que é o amor, mas também provoquem nos espectadores a sensação de que estão participando daquela ansiedade de um encontro às escuras, do sufoco de um namorado com uma mulher ciumenta, da dor de uma traição, da falta muito bem definida pela atriz parecida com uma vampira “que agoniza de saudade”.
A luz baixa, às vezes dependendo só de velas ou focos muito restritos a uma pequena parte do ambiente, contribui para a fotografia cativante, que faz com que a platéia torça por aquela história de carentes ansiosos que se vêem pela primeira vez, para que a ciumenta propositadamente vendada dê um passo além de sua neura, para que o casal homossexual se reconcilie e para que a traumatizada se recupere da perda amorosa com a ajuda de um sinistro conselheiro.
Os solitários que se paqueram numa primeira saída tentam esconder seus grilos e receios, o namorado devotado tenta mostrar à namorada cega de ciúme que não há garantias, o casal gay tem dificuldade de transpor a incômoda traição heterossexual e o aparente garoto de programa tenta convencer a sinistra entrincheirada em seus medos que é preciso arriscar, pois amar é como dançar, mas ela sua amargura persiste: “que se tudo na vida passa, como nós permaneceríamos” ?
A interferência sonora da rua nas cenas externas não colabora, as cadeiras firmes demais e pouco confortáveis para os pesos pesados também não. São os únicos “se não” da encenação, que traz à tona a fonte inesgotável de debates, reflexões, discussões e devaneios sensoriais: as paixões humanas. Uma surpresa e tanto vinda de jovens e pouco conhecidos atores.
Subterfúgio
Rua Antonia de Queirós, 165
Reservas: Francine 9235-0402
Até o fim de setembro
Quintas, sextas e sábados, 22h